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Aprendizes do Futuro: como incorporar conhecimento e transformar realidades

Para suportar as intensas mudanças nos próximos 10 anos, Aprendizes do Futuro compreendem que é necessário criar estratégias de capacitação onde a atenção esteja focada não no ensinar, mas no fomento da aprendizagem autodirigida, que modifica o desempenho e pode transformar realidades.

Num futuro próximo, educadores e gestores precisam saber criar situações e ambientes em que os aprendizes possam ser originais e sintam um alto nível de gratificação pessoal (sucesso psicológico, afirmação, sensação de ser eficaz) e profissional. Mais do que transmitir conteúdos ou construir exames, precisam ajudar os aprendizes a desenvolver seus talentos e saber empreender, pois estas serão atividades educacionais fundamentais para que o mesmo saiba agir e criar “seu próprio mundo” sustentável.

Aprendizes do Futuro estão criando uma nova forma de “ser” e “conviver”, e assim, criando um novo mundo. Este é uma ótima oportunidade para escolas, organizações, educadores e líderes compreender como os “Aprendizes do Futuro” estão desenvolvendo estratégias para “Ganhar a Vida”.

Deixe-me explicar o que eu chamo de Aprendizes do Futuro:

  1. São crianças, adolescentes e adultos que se sentem incomodados, angustiados e frustrados por receber um conjunto muito grande de informações irrelevantes, desinteressantes, que não acrescentam em nada na conquista de seus objetivos ou nos desafios reais que a vida lhe proporciona.

    Os aprendizes do Futuro “crianças”, que ainda não têm capacidade de argumentação convincente, se expressam com irritação, incômodo ou desafeto com a escola, com professores, pais e muitas vezes, com a vida.

  2. Aprendizes do Futuro que são “adolescentes e adultos” estão se virando melhor: acabam por criar, sozinhos ou em grupos, estratégias de aprendizagem bastante eficazes que garantam adquirir, incorporar e manifestar conhecimentos relevantes, mantendo-os atualizados e melhor preparados para lidar com as exigências da vida, agora e no Futuro.

Aprendizes do Futuro compreendem que aprender é modificar-se. Os desafios reais da vida oferecem grandes oportunidades para que eles se desenvolvam e aprendam a transformar conhecimento em riqueza econômica e social. Perceberam sozinhos que isso não se faz somente com saber declaratório (aquisição e memorização de dados, eventos e fatos). Acontece com saber procedural (aquisição de habilidades motoras, sensitivas e intelectuais que o levem a agir eficaz e corretamente).

Exemplo de aprendiz do Futuro

Joaquim tem 10 anos. Joga bola como ninguém. É um menino muito esforçado e criativo, mas tem muita dificuldade com Português, especialmente gramática.

Além das 5 horas na escola, é praticamente “obrigado” a ficar mais duas ou três horas fazendo lição de casa. Precisa se esforçar muito para tirar uma nota “C”, numa habilidade/talento que não é o forte dele.

Aos 10 anos, já está acostumado a estudar coisas que não são tão interessantes ou relevantes para ele. Por vezes fica irriquieto, ansioso e não gosta de fazer lição de casa. Há 3 anos está de reforço em Português.

O curioso é que esse aluno regular, que tem dificuldade de aprender gramática ou o verbo “to be”, de forma quase mágica, aprendeu rápida e eficazmente um jogo na internet chamado Colheita Feliz. Partiu do nível zero de conhecimento sobre o assunto para, em dois meses, fazer três milhões de moedas amarelas.

Aprendeu também em duas semanas a andar de skate, com um nível de proficiência muito boa.

Quem ensinou? A escola, os pais? Não. Os amigos.... com uma estratégia de aprendizagem um pouco diferente do que é utilizado na escola.

Joaquim representa um grande número de crianças, adolescente e adultos com conhecimento “acadêmico” mediano, que talvez seja “regular” em saberes declarativos (não se lembra quem Descobriu o Brasil ou a fórmula da Energia). Mas são considerados verdadeiros talentos (e porque não dizer gênios) quando se relacionam com situações espontâneas e reais, agindo como eficazes “atores”, com elevado conhecimento sobre saberes procedurais (é um ótimo escultor, faz um poema como ninguém, ajuda a mãe em todas as tarefas de casa).

Percebemos que esses “seres” vão aprendendo rápida e consistentemente à medida que fazem tarefas com alto interesse e com objetivos que compreenderam como importantes para o seu desenvolvimento e ou para a realização de um projeto de sua necessidade ou desejo.

Como aprendem os aprendizes do Futuro

Quando estudamos Vygotsky (1978) e seu conceito de auto-regulação, compreendemos que a aprendizagem de conhecimentos e de habilidades ocorre num contexto social onde um ser com maior aptidão (adulto ou criança) guia ou orienta a atividade de um com menor aptidão.

Podemos observar que, segundo este princípio, a autoregulação acontece tanto na escola quanto no jogo da Colheita Feliz. Mas o que há de diferente?

O que temos observado é que a aprendizagem torna-se mais efetiva quando há um legítimo interesse por parte do aprendiz e quando os conteúdos estão intimamente ligados à realidade de sua vida, a objetivos práticos que o aprendiz está interessado em alcançar.

O Joaquim não sabe em que ano o jogo Colheita Feliz foi lançado, quem o produziu, ou porque o criador o fez. O seu amigo-tutor não lhe ensinou isso.

Mas ele sabe jogar e aprendeu rapidamente a ganhar suas moedas amarelas. Durante a estratégia de aprendizagem guiada, o amigo do Joaquim, por telefone, vai informando o “como se faz”, passo-a-passo, garantindo o domínio necessário das tarefas que ele precisa realizar para se sair bem no jogo.

Quando o amigo/tutor percebe que o Joaquim vai ganhando o saber-fazer (conhecimentos e as habilidades) o mesmo lhe entrega, cada vez mais, o domínio e a responsabilidade das operações.

O aprendiz, à medida que ganha o domínio das atividades, interioriza os procedimentos e os conhecimentos envolvidos, manifestando cada vez mais e melhor sua autoregulação, o domínio das tarefas e habilidades envolvidas.

Os aprendizes do Futuro, ao aprimorar seu saber procedural, ganham juntos a autoestima e a autoeficácia necessária para saber posicionar-se na Vida.

Aprendizes do Futuro são auto-orientados a Ganhar a Vida

Como disse Carl Rogers, “o único homem educado é aquele que aprendeu como aprender, como adaptar-se à mudança; é o homem que compreendeu que nenhum acontecimento é seguro, e que somente o processo de buscar o conhecimento fornece a base para a segurança”.

Precisamos saber “ganhar a vida”, como disse o nosso respeitável educador Paulo Freire. E a vida está repleta de intensas mudanças e transformações no mundo.

A função limitada de transmissão de conhecimento que algumas escolas e professores se propõe é altamente questionável para o Futuro. Hoje partimos do princípio de que para ser mais inteligente é preciso “saber mais”. É preciso ter mais informação, mais escola, mais professor e mais conteúdo. Apóiam-se na crença ultrapassada de que “mais” é melhor. A Escola e as Organizações estão construindo um caminho duvidoso para o seu futuro, ao escolher oferecer “mais” conteúdo, em vez de melhor processamento das informações. Uma coisa é certa. Aos 15, 17 ou 19 anos esse aluno precisará ser autônomo, responsável e se “bancar”. E não temos certeza hoje de que todo esse conteúdo o ajudará não construção dessa responsabilidade e autonomia.

Dessa forma muitas escolas, professores e programas de treinamento nas Organizações passam a ser desinteressantes, pois utilizam 70% do seu tempo trabalhando com conteúdos que não tem relevância nenhuma para o aumento de recursos do aprendiz, ajudando o a lidar de maneira efetiva com os problemas e desejos de sua realidade.

Os alunos estão angustiados com os problemas emocionais e cognitivos que possuêm, não conseguem se expressar e manifestam pouca conexão emocional para serem ouvidos e respeitados. Chegam na aula e tem que aprender sobre Juscelino Kubitschek (nada contra o presidente). Porque ele tem que aprender sobre alguém que ele não conhece se quem o conhece ainda não aprendeu quase nada sobre ele? Porque aprender sobre Pedro Alvarez Cabral, se a professora e os pais não conseguem compreender a vida dele? O que ele passa, o que sente, como ele percebe a vida.

Os aprendizes do Futuro não estão utilizando essa abordagem conteudista. Os conteúdos são criados a partir do que o currículo escolar ou o professor pode ou acredita ser importante, não exatamente no que o aprendiz realmente precisa para “ganhar a sua vida”, e muito menos no que a vida exige em termos de conhecimento nos próximos 10 anos.

Essa dissonância acontece cada vez mais, pois os Aprendizes do Futuro preferem o aprendizado que lhes ajude a FAZER ALGO MELHOR do que a informação que lhe faz parecer mais inteligente.

Condições capacitantes que possam ajudar o Aprendiz do Futuro

Gostaria de compartilhar alguns princípios que estamos aprendendo e aplicando em Instituições de Ensino e Organizações para acelerar o processo de aprendizagem de equipes e talentos em contextos de transformação:

  1. Busque construir estratégias para que o aprendiz consiga se apropriar, não de informação, mas de conhecimentos que o ajudem a ganhar domínio das atividades e tarefas necessárias para a realização de seus objetivos mais concretos e relevantes.

  2. Para aprendizes do Futuro, não é a informação propriamente dita, mas o apoio emocional e procedural que gera o domínio dos processos e atividades necessárias para se cumprir objetivos por ele mesmo desenhado. Ele não está esperando por um professor (que professa), mas por um agente de processos que tem clareza dos resultados e processos envolvidos. Que sabe diagnosticar os objetivos e o nível de aprendizagem que a pessoa se encontra. Que sabe acompanhar e subsidiar, localizando competências e tarefas no processo, indicando conquistas e desafios.

  3. Aprendizes do Futuro estão interessados em descobrir suas potências e transformá-las em valor. Ajude-os a amplificar duas ou três de suas inteligências, transformando seus talentos em algo produtivo e desejável para sua comunidade e para o mundo.

  4. Ajude o aprendiz a conhecer melhor como ele se comporta diante da Realidade. Ele tem chances de aprender melhor “fazendo” o que precisa ser feito. Ajude-o a compreender como as coisas funcionam, como decifrar processos. Demonstre casos e experiências reais do que precisa ser aprendido.

  5. Ajude-o a direcionar seu próprio aprendizado com as 7 perguntas relevantes:

    a) O que estou realmente precisando aprender?
    b) Quem são os experts?
    c) O que eles consideram crucialmente importante aprender para que você seja proficiente?
    d) Existe algum vídeo, artigo, livro, podcasting que possa ajudar a complementar minha aprendizagem?
    e) Quais são as três palavras-chave para procurar na internet?
    f) Depois das perguntas anteriores, sei o que é relevante saber e como agir?
    g) Como posso construir um plano de ação e aplicá-lo no meu dia-a-dia?

  6. Incentive-o a obter contato com ambientes de alta performance onde possa “aprender fazendo com os melhores”. Dê oportunidade de observar e interagir com profissionais que fazem muito bem o que precisa ser feito.

Aprendizes do Futuro procuram entender as razões e os caminhos pelas quais  seus talentos podem e devem ser manifestados, tornando-se seres de realização.

Para o Filósofo Espinosa, a Liberdade é ativa quando consegue compreender a ordem e a conexão necessária do Real, a produção do real e a inserção do homem nessa produção. A paixão guiada pela consciência que temos de alcançar a plenitude de nosso ser através da compreensão de nós mesmos e da manifestação de nosso propósito, de nossa causa ativa.

Se precisar do artigo em pdf, é só solicitar pelo e-mail: artigoaf@entheusiasmos.com.br

Eduardo Carmello - 13/08/2010

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